São Paulo, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026

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A Corrida Tecnológica Global: Laboratórios Chineses Rivalizam com o Vale do Silício e Desafiam a Supremacia dos EUA em Inteligência Artificial

A Corrida Tecnológica Global: Laboratórios Chineses Rivalizam com o Vale do Silício e Desafiam a Supremacia dos EUA em Inteligência Artificial

Por Redação

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“Quem vencer com a IA, vence”. Foi com essa frase que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, resumiu a importância estratégica que atribui à corrida global pela inteligência artificial. Ao rejeitar apelos para desacelerar o desenvolvimento de modelos mais avançados, o republicano recolocou a China no centro das atenções, defendendo veementemente que os EUA preservem sua hegemonia no setor. A apreensão norte-americana está longe de ser infundada: laboratórios chineses vêm encurtando drasticamente a distância para gigantes do setor como OpenAI, Anthropic e Google DeepMind. Atualmente, sistemas desenvolvidos por companhias como Alibaba, DeepSeek e Z.ai já figuram próximos aos líderes em diversos benchmarks, ao passo que Pequim direciona investimentos pesados para modelos abertos, agentes autônomos, robótica e semicondutores próprios. Contudo, surge o questionamento: a China já alcançou um patamar onde enfrenta os mesmos riscos associados a ferramentas consolidadas como o ChatGPT e o Claude?

A proximidade tecnológica entre as duas potências se acentuou sobremaneira nos últimos dois anos. Uma análise conduzida pela Reuters e publicada em setembro aponta que as tecnologias chinesas encontram-se apenas marginalmente atrás dos principais modelos dos Estados Unidos em determinadas capacidades, embora não exista uma única métrica capaz de atestar qual nação detém a “melhor IA”. Os benchmarks — testes comparativos padronizados que avaliam raciocínio, matemática, programação e outras competências — ilustram essa convergência, mas exigem interpretação cautelosa: uma inteligência artificial que se destaca na programação pode apresentar desempenho inferior em outras frentes.

Nesse cenário de acirrada concorrência, a Alibaba, proprietária do AliExpress, lançou em fevereiro o Qwen 3.5, um modelo focado primordialmente em agentes de IA capazes de executar fluxos de trabalho diretamente em aplicativos e dispositivos. Conforme dados divulgados pela própria empresa, o sistema superou versões de GPT, Claude e Gemini em testes específicos selecionados, embora métricas fornecidas pelos desenvolvedores não bastem para decretar uma superioridade generalizada no mercado.

Outro player de destaque é a DeepSeek, que permanece na vanguarda dos laboratórios chineses. Em setembro, a startup fundada em 2023 introduziu o V4.1-Flash, uma versão otimizada para respostas mais céleres e maior capacidade de processamento, além de expandir aportes financeiros em infraestrutura, chips e capital humano especializado. Paralelamente, a Z.ai — anteriormente conhecida como Zhipu AI e criadora da família GLM — tem ganhado tração. Avaliações independentes realizadas pela Artificial Analysis mostram que versões do GLM, Qwen e DeepSeek disputam as posições de topo em testes de inteligência e raciocínio, com variações de liderança conforme a metodologia aplicada.

Adicionalmente, a China mantém uma vantagem competitiva relevante em outro segmento: sistemas que podem ser baixados e adaptados por desenvolvedores. Um relatório da Mozilla divulgado em setembro estimou que os principais modelos chineses dessa categoria estavam a aproximadamente quatro meses de atraso em relação aos sistemas fechados de fronteira dos Estados Unidos em métricas específicas.

A estratégia geopolítica e comercial de Pequim, contudo, vai muito além da simples criação de clones para chatbots. O presidente chinês, Xi Jinping, passou a defender publicamente modelos de IA abertos e o fomento à cooperação internacional no ecossistema tecnológico. Em julho, durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial sediada em Xangai, Xi clamou pelo estímulo ao código aberto e à partilha de tecnologias, além de pleitear uma maior inclusão de países em desenvolvimento na construção da infraestrutura de inteligência artificial. A proposta foi reiterada no cúpula do BRICS realizada em setembro, onde o líder chinês propôs a criação de uma zona de código aberto dedicada à IA entre as nações integrantes do bloco.

No âmbito doméstico, outro pilar estratégico reside nos agentes autônomos — sistemas dotados da capacidade de planejar tarefas, tomar decisões autônomas e operar ferramentas secundárias exigindo mínima intervenção humana. Projeções da Huawei indicam que essa tecnologia ganhará protagonismo expressivo no processamento de IA, motivando o governo chinês a estruturar arcabouços normativos de segurança específicos para esses ambientes.

A robótica avança como outra prioridade central. A startup chinesa Spirit AI já implementou dezenas de robôs humanoides em linhas de produção de empresas de peso como CATL e JD.com, aprimorando incessantemente a destreza desses equipamentos na interpretação de comandos e execução de tarefas físicas. Simultaneamente, o país busca mitigar sua principal vulnerabilidade: o acesso restrito aos processadores mais avançados da Nvidia, bloqueados por sanções impostas pelos EUA. Como resposta, a Huawei tem desenvolvido a linha Ascend e arquiteturas capazes de clusterizar grandes volumes de chips nacionais para compensar limitações individuais de hardware.

Diante desse cenário, resta saber se as IAs chinesas acarretam os mesmos riscos que suas equivalentes ocidentais. Teoricamente, à medida que os modelos chineses alcançam paridade funcional — sobretudo em agentes autônomos, programação e cibersegurança —, os riscos inerentes tendem a se equiparar. No entanto, especialistas ponderam que ChatGPT, Claude e as soluções chinesas não se encontram, hoje, no exato mesmo estágio de maturação. Eric Xu, presidente rotativo da Huawei, declarou recentemente que os desenvolvedores do país talvez ainda não disponham de modelos suficientemente avançados para catalogar os mesmos riscos de segurança reportados pelas grandes corporações norte-americanas.

Essa perspectiva encontra eco na análise de Pedro Burgos, especialista e consultor em inteligência artificial, em entrevista concedida ao Canaltech. Para ele, a China permanece em desvantagem na fronteira tecnológica, muito embora a velocidade de sua evolução seja notável. Burgos atribui parte dessa lacuna à escassez relativa de poder computacional, apontando que as restrições impostas ao hardware dificultam a trajetória dos laboratórios locais, enquanto empresas como a Huawei lutam para mitigar a dependência externa por meio de processadores próprios. Apesar disso, o especialista descarta qualquer permanência definitiva dessa distância: “A China vai continuar avançando”, pontuou. Burgos também antecipa que Pequim intensificará a regulação à medida que seus modelos ganhem robustez, embora impulsionada por motivações distintas daquelas que orientam governos e corporações ocidentais.

Assim, a disputa que tanto sobressalta Donald Trump desenrola-se em meio a caminhos divergentes: enquanto o Vale do Silício concentra grande parte dos modelos fundamentais mais avançados, a China comprime essa margem, expande seu portfólio de código aberto e consolida uma cadeia de suprimentos autossuficiente. Resta examinar o que verdadeiramente reside por trás da apreensão das grandes potências perante o avanço vertiginoso da inteligência artificial.


Fonte original: canaltech.com.br


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