O Google anunciou recentemente que planeja dobrar a sua infraestrutura técnica no Brasil até o ano de 2030. No entanto, mesmo diante do avanço acelerado da inteligência artificial (IA) e da sanção do Redata — regime federal voltado para estimular novos centros de dados no país —, a big tech ainda mantém cautela e não confirma oficialmente a construção de um novo campus de data center em território nacional.
Questionado durante uma coletiva de imprensa no Google Cloud Summit Brasil por Eduardo López, presidente do Google Cloud para a América Latina, sobre o que faltaria para a instalação de um novo grande data center, o executivo destacou que o principal direcionador para qualquer aporte financeiro da companhia é a demanda real do mercado. Segundo López, a decisão de duplicar a capacidade atual no país representa uma forte aposta no crescimento do uso das ferramentas de computação em nuvem e de IA pelas empresas brasileiras.
O cenário para investimentos em infraestrutura digital no Brasil ganhou tração regulatória recentemente. Em setembro, o Governo Federal sancionou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata). A nova legislação visa reduzir a carga tributária incidente sobre equipamentos necessários para a implantação, modernização e ampliação de centros de dados, impondo, em contrapartida, obrigações específicas para as companhias beneficiadas.
Entre as exigências do Redata está a diretriz de soberania digital: as empresas deverão destinar ao mercado brasileiro ao menos 10% da capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados gerada com os incentivos fiscais. Dados do governo apontam que cerca de 60% das cargas digitais brasileiras ainda são processadas fora do país. Além disso, o regime estabelece critérios rigorosos de eficiência hídrica e demanda que toda a eletricidade consumida seja proveniente de fontes renováveis ou de baixa emissão.
Para López, a política tributária é um facilitador importante para o custo operacional das infraestruturas. Em paralelo às exigências energéticas, o Google tem buscado ampliar seus projetos de descarbonização no Brasil. Recentemente, a empresa firmou sua maior compra de remoção de carbono até o momento, em parceria com a Terradot, com foco em iniciativas como o manejo sustentável em fazendas de arroz no Rio Grande do Sul. O projeto tem a meta de eliminar e remover milhões de toneladas de CO2 nas próximas décadas, alinhando-se ao desafio global de expandir a capacidade de computação avançada sem inflar proporcionalmente as emissões de carbono.
Além da expansão da infraestrutura técnica e de computação de alta performance, a companhia informou novidades em seu portfólio de nuvem, incluindo o processamento local de dados do Gemini 3.5 Flash a partir de outubro e a disponibilização de máquinas virtuais G4 equipadas com GPUs Nvidia RTX Pro 6000 Blackwell na região de nuvem de São Paulo. A localização regional atende diretamente a corporações que necessitam manter o processamento de dados internamente por motivos de segurança, regulação ou soberania.
Apesar desses avanços, López ressaltou que duplicar a capacidade computacional não significa obrigatoriamente a construção imediata de um novo campus físico. A estratégia de infraestrutura da companhia também engloba investimentos robustos em conectividade internacional, como os cabos submarinos Firmina, Tannat, Curie e Humboldt na América Latina, que conectam o Brasil à rede global da empresa e otimizam a circulação de dados. Por ora, a construção de um novo data center físico brasileiro permanece fora do calendário imediato da corporação.
Fonte original: Canaltech