O Google está se preparando para dar um passo pioneiro em sua infraestrutura tecnológica ao direcionar parte de suas operações de inteligência artificial para o espaço. Com o lançamento de um satélite experimental programado para o dia 1º de outubro, a empresa dará início aos testes práticos do Project Suncatcher, uma iniciativa ambiciosa que investiga a viabilidade de construir data centers espaciais alimentados integralmente por energia solar.
Embora a ideia pareça futurista, o projeto ainda está em estágio inicial e longe de substituir as instalações terrestres. O primeiro satélite, batizado de MVP, contará com uma capacidade computacional equivalente à de apenas um servidor tradicional de data center. O principal objetivo dessa fase é analisar o comportamento e a durabilidade dos chips de IA da companhia operando por longos períodos no ambiente espacial.
A busca por alternativas fora da Terra surge como uma resposta estratégica a um dos maiores gargalos da corrida tecnológica atual: a escassez de energia, espaço físico e infraestrutura adequada no planeta. As ferramentas de inteligência artificial exigem volumes massivos de eletricidade para o treinamento e execução de modelos complexos, o que tem elevado drasticamente a demanda energética da indústria.
Em órbita baixa, os satélites conseguem captar luz solar de maneira quase contínua. Segundo estimativas do Google, essa posição privilegiada possibilita gerar até oito vezes mais energia solar do que em qualquer superfície terrestre, mitigando um dos principais entraves para a expansão da capacidade de computação em larga escala.
A visão de longo prazo da companhia é estabelecer uma frota colaborativa composta por dezenas ou até centenas de satélites interconectados, funcionando como um grande data center distribuído no espaço. O Google já projeta conceitos de frotas com mais de 80 equipamentos operando em formação, além de discutir com engenheiros aeroespaciais a criação de estruturas monumentais que poderiam atingir o comprimento de um campo de futebol.
Nesta primeira missão, contudo, o equipamento levará quatro TPUs (Tensor Processing Units) — processadores proprietários desenvolvidos pelo Google especificamente para tarefas de inteligência artificial. Os painéis solares do satélite fornecerão cerca de 1 kW de energia, o equivalente ao consumo de um secador de cabelo doméstico, suprimento suficiente para processar consultas rápidas do modelo Gemini e monitorar a resistência do hardware.
A durabilidade esperada para o satélite MVP é de aproximadamente um ano em operação, embora ele possa permanecer em órbita por até seis anos antes de sua reentrada na atmosfera terrestre. Os engenheiros da empresa enfrentam desafios técnicos severos, sendo o controle térmico um dos mais críticos. Como o vácuo espacial impede o uso de ventiladores convencionais para o resfriamento, o Google desenvolveu um sistema composto por camadas de alumínio e cobre para dissipar o calor em direção a um radiador voltado para o espaço. Atualmente, as TPUs conseguem operar por cerca de 15 minutos antes de precisarem ser temporariamente desligadas para resfriar.
Outro obstáculo significativo é a radiação cósmica, que pode causar falhas conhecidas como bit flips, alterando dados binários nos processadores. Desde fevereiro de 2025, o Google submete seus chips a simulações de laboratório com níveis de radiação equivalentes a cinco anos de exposição espacial. Os testes preliminares indicam que o simples procedimento de reinicialização dos chips é capaz de corrigir os erros provocados pelas partículas.
Apesar dos desafios relacionados à manutenção, à comunicação orbital e aos custos elevados de lançamento, a empresa calcula que os data centers espaciais poderão alcançar custos operacionais equiparáveis aos das estruturas terrestres em meados da década de 2030, desde que o mercado de lançamentos espaciais mantenha sua atual trajetória de barateamento.
Fonte original: Canaltech